O fim dos sonhos

Escrito por Mhario Lincoln em 04/10/2015

Por José de Oliveira Ramos  

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A longa e infrutífera espera – nem assim me desesperei.
Ontem me flagrei saindo de casa. Usava meu fusquinha preto e seguia na direção de um encontro que, inicialmente, me levaria ao amor – o combustível sem preço que abastece nossos corpos e rejuvenesce nossas almas.
Cheguei e senti um aroma conhecido de outras horas e de outros dias. O aroma da vida. Olhei o relógio e não vi as horas – e isso nem interessava muito, pois na hora que chegasses nos abraçaríamos de braços largos e pernas abertas.
Nos envolveríamos em gozos, provocando orgasmos e um longo sono nos molhados lençóis brancos.
Lençóis brancos, dentro de um fusquinha preto?!
Tudo era apenas um bom e indesejado sonho. O sonho da espera de ter-te no carro debaixo de ventos e aromas conhecidos, ou de lençóis macios da pura seda. É um sonho que, espero, um dia se torne realidade.
Um barulho externo chama a atenção. Paro a leitura. Fecho o livro na página que antevê a posse e o gozo. Apago a luz do abat-jour e caminho na direção da porta de entrada.
Abro a porta e te vejo. Vestias um longo casaco de veludo preto e, por baixo, apenas uma calcinha preta delineando tua beleza curvilínea.
Eu, sem palavras, como se tivesses realizado uma mágica. Jogas o roupão no sofá e te apresentas magicamente nua, vestida apenas com uma rosa vermelha.

Mal percebi que terminara de ler mais um capítulo do livro que tem o teu nome e todas as páginas são dedicadas a ti.
Apago a luz, e adormeço debaixo de lençóis reais.

A Liberdade escondida em nós...

Escrito por Mhario Lincoln em 22/09/2015

Por José de Oliveira Ramos  

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A liberdade é algo escondido em cada um de nós – pode ser o “ponto G” do caráter

Se olharmos bem e fixamente, nos veremos passeando na lua e eliminaremos qualquer distância – apenas com a nave do pensamento e da liberdade.

Sei que só há uma liberdade: a do pensamento. (Antoine de Saint-Exupèry)

Faz muito tempo que, depois de presenciarmos vários desenhos do nascer do sol de matizes diferentes e, pelo nosso status quo assistirmos igual número de por do sol, na sua grande maioria, tingido de um vermelho alaranjado, que convivemos com pessoas que vivem o sonho eterno da viver a liberdade.

Essas pessoas se envolvem tanto com a conquista, que blindam a sensibilidade a ponto de não perceberem que, incontáveis vezes, a verdadeira liberdade passou por elas. A liberdade, dizia minha Avó na sua contextura angelical de analfabeta, “pode estar até no coaxar do sapo”. Não a nossa liberdade. Mas, a do sapo, claro.

Ou será que liberdade só tem valor e sentido, quando é a nossa?

Muitas vezes, nem percebemos, nos libertamos no achar da liberdade dos outros. E, diziam Vovó, é assim que ela passa por nós, vezes seguidas, e não percebemos – porque somos egoístas e a imaginamos apenas para e por nós.


Sim, estamos aqui dentro, presos. Mas, que tal olharmos a liberdade daqueles pássaros?
Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar. (Helen Keller)
Se tivermos a liberdade em nossas mentes, estaremos sempre nos voos dessa águia

“Era uma vez uma águia que foi criada num galinheiro. Cresceu pensando que era galinha. Era uma galinha estranha (o que a fazia sofrer). Que tristeza quando se via refletida nos espelhos das poças d’água tão diferente! O bico era grande demais, adunco, impróprio para catar milho, como todas as outras faziam. Seus olhos tinham um ar feroz, diferente do olhar amedrontado das galinhas, tão ao sabor do amor do galo.

Era muito grande em relação às outras, era atlética. Com certeza sofria de alguma doença. E ela queria uma coisa só: ser uma galinha comum, como todas as outras.

Fazia um esforço enorme para isso. Treinava ciscar com bamboleio próprio. Andava meio agachada, para não se destacar pela altura. Tomava lições de cacarejo.

O que mais queria: que seu cocô tivesse o mesmo cheiro familiar e acolhedor do cocô das galinhas. O seu era diferente, inconfundível. Todos sabiam onde ela tinha estado e riam.

Aconteceu que, um dia, um alpinista que se dirigia para o cume das montanhas passou por ali. Alpinistas são pessoas que gostam de ser águias. Não podendo, fazem aquilo que chega mais perto. Sobem a pés e mãos, até as alturas onde elas vivem e voam. E ficam lá, olhando para baixo, imaginando que seria muito bom se fossem águias e pudessem voar.

O alpinista viu a águia no galinheiro e se assustou.

- O que você, águia, está fazendo no meio das galinhas? Ele perguntou.

Ela pensou que estava sendo caçoada e ficou brava.

- Não me goza. Águia é a vovozinha. Sou galinha de corpo e alma, embora não pareça.

- Galinha coisa nenhuma, replicou o alpinista. Você tem bico de águia, olhar de águia, rabo de águia, cocô de águia. É ÁGUIA. Deveria estar voando... E apontou para minúsculos pontos no céu, muito longe, águias que voam perto dos picos das montanhas.

- Deus me livre! Tenho vertigem das alturas. Me dá tonteira. O máximo, para mim, é o segundo degrau do poleiro, ela respondeu.

O alpinista percebeu que a discussão não iria a lugar nenhum. Suspeitou que a águia até gostava de ser galinha. Coisa que acontece frequentemente. Voar é excitante, mas dá calafrios. O galinheiro pode ser chato, mas é tranquilo. A segurança atrai mais que a liberdade.

Assim, fim de papo. Agarrou a águia e enfiou dentro de um saco. E continuou sua marcha para o alto da montanha.

Chegando lá, escolheu o abismo mais fundo, abriu o saco e sacudiu a águia no vazio. Ela caiu. Aterrorizada, debateu-se furiosamente procurando algo a que se agarrar. Mas não havia nada. Só lhe sobravam as asas.

E foi então que algo novo aconteceu. Do fundo de seu corpo galináceo, uma águia, há muito tempo adormecida e esquecida, acordou, se apossou das asas e, de repente, ela voou.

“Lá de cima olhou o vale onde vivera. Visto das alturas ele era muito mais bonito. Que pena que há tantos animais que só podem ver os limites do galinheiro!”

Liberdade é classificada pela filosofia, como a independência do ser humano, o poder de ter autonomia e espontaneidade. A liberdade é um conceito utópico, uma vez que é questionável se realmente os indivíduos tem a liberdade que dizem ter, se com as mídias ela realmente existe, ou não.

Que mãos teriam aberto aquele pedaço de janela? As mãos da liberdade, claro. E, como dizia minha Avó, as pequenas e belas borboletas conquistaram a liberdade por mãos alheias. A liberdade, assim, é algo que está escondido em nós. Todos nascem com esse DNA – temos asas, sim, ainda que apenas no pensamento.

José de Oliveira Ramos em novo ACERVO

Escrito por Mhario Lincoln em 20/09/2015

matéria desta semana do jornalista José de Oliveira Ramos estará sendo editada no novo ACERVO literário que sairá nesta segunda-feira. Só após a edição na no novo Acervo é que será republicado aqui. Ou seja,segunda-feira à tarde.

Vocês, leitores deste grande jornalista, vão gostar imensamente do novo ACERVO.

Inclusive podem comentar de forma direta. Sem passar pelo editor.

Obrigado.

Abraços.

O Acendedor de Lampiões

Escrito por Mhario Lincoln em 12/09/2015


Por José de Oliveira Ramos
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 Acendedor de Lampiões – no passado poético da humanidade foi “profissão”

 

Cada gesto é uma atitude poética – dependendo do estado de espírito de quem interpreta. Um simples vestido longo de cor amena de uma mulher, pode conduzir quem vê, a uma poética noite de valsas. Valsas vienenses, de passos largos, medidos, suaves, cujo desfile no salão conduz ao Danúbio Azul. Da mesma forma, o isolamento para fumar um cigarro, distante de lugar proibido, pode levar à apreciação das estrelas numa noite escura, enquanto a amada foi retocar a maquiagem.
Enfim, tudo pode parecer e ser poético. Depende de mim, depende de ti, depende de nós. Nós é que somos, ao mesmo tempo, poéticos, poetas e poesia.
Assim, voltando ao passado, nem precisa uma noite fria para nos reconduzir à figura poética e laboral do Acendedor de Lampiões. Antes da tecnologia, antes das grandes geradoras de energia – que, sem nenhuma poesia nos roubaram os leitos dos nossos rios perenes – o fim da claridade do dia nos apresentava, aqui e alhures, o Acendedor de Lampiões.
Acender lampiões foi “profissão”. Profissão digna e necessária – embora, como tantas outras, sempre mal assalariada. Jorge Lima, poeta alagoano, em momento raro de introversão do seu ser, produziu a poesia que retrata aquela esquecida “profissão”.

 

Uma equipe de Acendedor de Lampiões em pose chama a atenção pela vestimenta que inclui o quepe ou chapéu e a inseparável escada no chão bem como o instrumento de trabalho

 

O Acendedor de Lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: –
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Não estão muito distantes de nós as noites poéticas. Noites dos lampiões, das serenatas tocadas ante o balcão da amada, como numa cena teatral de Shakespeare, ao inebriante e também poético som do violino e suas cordas mágicas.

Ahhh!.... as nossas músicas, que emolduravam nossas paixões na juventude!

Nossas tertúlias! Lembram?

Nosso primeiro beijo na boca da amada! Dá para esquecer?
E nosso primeiro buquê de rosas, ou a simples e bela rosa vermelha em troca de um beijo, cálido, puro e cheio de convites para o futuro?


Uma bem iluminada praça e seus lampiões

Agora, entremos nas nossas casas. Lembremos o nosso passado sem “poesia” alguma. Lembremos o “candeeiro” que precisava ser “bombeado” para iluminar nossas salas e, às vezes, a nossa casa inteira e até as nossas vidas.
Depois, foram surgindo outros tipos de fontes de energia, como o gás adaptado num pequeno botijão. A vela, a lamparina e, nas ruas, até mesmo os fachos que queimavam algum tipo de óleo.

O candeeiro antigo nas residências

Ainda no recôndito de nossas casas, sem a compreensão e meiguice da poesia, encontramos a velha e sempre útil lamparina. Movida a querosene e à necessidade. Inexplicavelmente, acabava o querosene, mas o pavio, sempre de algodão, não acabava nunca. E, tanto quanto os celulares de hoje, a lamparina era modernamente, portátil.

A foto abaixo mostra a realidade de algumas famílias que nunca usufruíram do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do Petrolão, do Mensalão, tampouco do BNDES.
A sagrada “hora do jantar” – café preto, sem pão, nem queijo nem manteiga e muito menos presunto ou mortadela. Provavelmente havia um ovo frito n´água para acalentar o sono e ludibriar a fome e fazer de nós seres poéticos. Poetas com poesias!

 

 

 

 

A bela e sempre útil lamparina doméstica

A vida é uma bela poesia, quando a vivemos com dignidade, cidadania e obediência divina. Fora disso, é modismo intempestivo que o vento carrega para algum lugar ainda desconhecido, e literalmente sem rimas.

A EXACERBAÇÃO DO ÓDIO

Escrito por Mhario Lincoln em 10/09/2015

(*) Lourival Serejo

"A marca comum do ódio é a exacerbação dos sentimentos

hostis em relação ao próximo"


Sociólogos, religiosos, antropólogos e toda a comunidade global manifestam-se preocupados com a evolução e a prática do ódio nas relações sociais, políticas, religiosas e ideológicas, em todos os países, dos desenvolvidos aos subdesenvolvidos.
Destaco, de início, o recrudescimento do ódio nos Estados Unidos e na Europa. Nesses pontos, em continentes distantes, cresce a onda de xenofobia frente aos imigrantes, o preconceito racial e religioso e a radicalidade da direita reacionária. A França, que fez a Revolução pela liberdade, igualdade e fraternidade, vive um momento de tensão acalorada pela intolerância.
O ódio racial nos Estados Unidos tem feito muitas vítimas nos últimos anos e tende a crescer, não obstante terem um negro – Barack Obama – como presidente, o que tem lhe causado forte oposição, notadamente pelas suas posições pelo diálogo das nações e pelos planos sociais, respectivamente, os casos do Irã e de Cuba, e seu programa de saúde à população carente.
A situação dos imigrantes africanos, como párias em busca de melhores condições de vida, tem agitado as nações europeias como um impasse difícil de resolver. Tal situação exacerba os sentimentos de ódio dos xenófobos e racistas.
No mundo árabe, com as manifestações fundamentalistas, a violência interpessoal é uma constante, provocando mortes a todo momento.
No Brasil, não é diferente. Várias são as manifestações de ódio em nosso cotidiano. As intolerâncias multiplicam-se a cada dia: os haitianos, em São Paulo, já foram vítimas de atos de xenofobia; homossexuais são frequentemente agredidos na Avenida Paulista e em outras partes do país; os atos de linchamentos repetem-se em todos os estados.
A marca comum do ódio é a exacerbação dos sentimentos hostis em relação ao próximo. Tomam com seriedade a assertiva de Sartre de que "o inferno são os outros".
Para suplantar essa ameaça de ódio, seria preciso uma campanha pela ética a ser digerida em sua expressão mais simples: a fraternidade, esse princípio esquecido. Os agentes raivosos, possuídos das mais variadas fobias, recusam-se ao convite da alteridade para ver o rosto do outro e radicalizam posições que chegam às raias da violência. Para eles, só "eles mesmos" estão certos. Os outros representam o mal que deve ser combatido e extirpado.
A ausência de valores e a cegueira do fanatismo fazem os portadores do ódio esquecerem a dignidade de cada um, a liberdade de cada pessoa agir segundo suas inclinações, o respeito pelo postulados mais antigos das virtudes da convivência.
Foi lançada no Brasil, recentemente, a tradução do livro do filósofo argelino radicado na França, Jacques Francière, Òdio à Democracia, em que o autor analisa essa permanente inconformação dos radicais pela inclusão que o regime democrático promove em favor de todos, sem qualquer distinção. Muito antes, Hannah Arendt já se preocupara com a violência como forma de massacre às minorias, ela mesma uma vítima do antissemitismo.
O exercício do ódio, que cega a razão, em suas diversas matizes, é uma ameaça à paz, contra o qual devemos estar alerta para fazermos a nossa parte, à nossa volta, com gestos de fraternidade pelo acolhimento do outro e suas consequências.

 

Lourival Serejo é desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão

 

A Genética do Bom Senso

Escrito por Mhario Lincoln em 08/09/2015

(*) Mhario Lincoln
jornalista sênior
Editor da REVISTA POÉTICA BRASILEIRA
www.revistapoeticabrasileira.com.br

 

Aedo, Vanice e Mhario

 

Não foram poucas as vezes que quis conhecer pessoalmente o poeta multifacetado Osmarosman Aedo. E o fato se tornou realidade na tarde deste 7 de setembro, no restaurante Babilônia, no Mueller, em Curitiba.
E lá fomos nós abraçar esse amigo baiano, cuja estrela brilhou nos céus da pátria curitibana e o transformou na mais nova sensação entre os poetas vivos da cidade.
Tanto que com pouco mais de dois meses, já terá sua obra "Epitáfio (O livro dos Vivos)", lançado dia 29 deste, em grande festa literária promovida pelo Instituto Memória (Curitiba), presidido pelo editor Anthony Leahy, pessoa das mais simpáticas que também conheci recentemente.
Como anfitriões de Aedo, Luid Ferreira e sua esposa, a brilhante Vanice Zimerman Ferreira, poeta curitibana que teve seus versos publicados em coletânea internacional recentemente - Antologia de Haicai - 23 - Samoborski haiku susreti - Darko Plazanin - SAMOBOR HAIKU MEETING - Samobor, abril . 2015 (página 41) - Samobor/ Croácia.
Vanice é, sem dúvida, dona de um talento respeitado; e como vemos, a faz transpor os vôos regionais da gralha azul.
Por outro lado, ansioso em chegar em casa, após o encontro, para ler, de imediato, a antologia poética "Vozes da Alma", que Aedo participou, sendo um dos destaques da Confraria dos Autores, que editou o livro.
Claro que não resisti interpretar essa simbiose hermenêutica entre o surto e a beleza das borboletas e "como não redesenhar o cosmo", diante de poema tão real e retilíneo chamado "Quando surtei...", às pags. 67 dessa bela antologia.
Sim, é dignificante embebedar-se com a frenética harmonia do poema, que foge do chão e procura o universo como última esperança, numa eterna busca por paz e flores, mesmo que"flores num deserto, se para visionar esse deserto é preciso ter flores nos jardins de silêncio, na vasta imensidão da lembrança(...)."
Leu? Sentiu? Interpretou? Vivenciou esses versos de Aedo? Cá pra nós. Esse cabra baiano tem alguma coisa que me lembra o poeta Augusto dos Anjos, angustiado em busca de sua interação preciosa com um amor galáctico, transponível ao ponto de ganhar universos e florí-los com a força de seu próprio amor, num duo poético que lembra muito dos Anjos:

"A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança."

Tomei (saliente e ousado que sou) a liberdade de fazer uma análise rápida das poesias que encontrei nessa antologia "Vozes da Alma" e acabei esbarrando em Augusto dos Anjos ao ler, de Osmarosman, por exemplo, "Não posso/Não devo/Não quero ser mais UM", diz ele em "Decodificando a genética do Medo".
Mas há uma sutil diferença: Percebo que Aedo, na severa construção pessoal do seu ritmo poético, mostra muita genialidade (especialmente em "Decodificando a genética do Medo"), ao dar vida a ações ignóbeis para recolocá-las no lugar onde deveriam estar, mas injetando doses abissais de esperança ("...só porque um imbecil qualquer ativou o autoalarme de destruição do meu planeta (...), quando UM ainda pode arriscar-se na tal diferença...".
No mesmo poema Osmarosman diz: "Preciso solidiascender o DNA da perseverança...". Isso representa efetivamente uma luta contra o lado abjeto do Homem, fato que o fará, sem dúvida, "ver o por-do-sol amanhã", sem "perder o senso de minha rota". Esses versos são maduros, fortes e sonorizam perspicácia.
Por isso, esse soteropolitano tem, sim, muitas chances de ver florescer seu trabalho enigmático por estas bandas do sul do Brasil.
Seja na música (harmonia enclítica), seja na poesia (um cosmonauta romântico que conta estrelas), seja em multifacetados talentos, os quais lhe foram presenteados em sua formação genética, "como aos meus ancestrais(...) ainda que me exibas cobaia(...)".

Destarte, in consilium meum, tudo isso vem da sua força pessoal, da alma calejada e do talento burilado em pedra de marfim e ébano, como tridente, este, símbolo solar e mágico de poder, força e controle universal (do seu próprio universo poético), que Osmarosmaran Aedo utiliza em suas lutas gladiadoras, quando recebe seus insights nas arenas da percepção diária.
E isso é tão verdadeiro quanto excitante: "Ao pó, não voltarei...promessa de sobrevivente...". (Quando surtei/ob.cit.) Sim excitante! A luta excita. Acreditar em si mesmo, excita! Lutar por seus valores, excita! Acreditar em suas convicções benígnas, excita! Verum est, caro Aedo.
Pena daqueles que não se excitam em busca de seus objetivos e nem acreditam que lutar e sair da guerra como sobrevivente, também excita.
E quem não é um sobrevivente hoje em dia, quando todas as armas da ignorância rasgam os infernos literários para dispersar quem pensa, age e forma idéias? Todos os que pensam, agem e formam ideias, caro Aedo, são sobreviventes.
Uns por não saberem versar, já estão mortos, mesmo que gritem calados em suas solidões silenciosas, como me ensinou Walt Whitman, in Leaves of Grass: "Sempre a indesencorajada alma do homem resoluta indo à luta".
Outros, caro Aedo, como nós, sobreviventes, conseguimos ainda gritar ao vento na esperança que nossos ecos possam rolar pela ribanceira do bom senso e adormercer em solo fértil.
E como você mesmo diz, caro amigo, não podemos perder o senso de nossa rota.

Seja bem vindo.
Mhario Lincoln
jornalista sênior
Editor da REVISTA POÉTICA BRASILEIRA
www.revistapoeticabrasileira.com.br

 

A Espera

Escrito por Mhario Lincoln em 06/09/2015

Especial:

José de Oliveira Ramos

 

 

 

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Foi aqui que descobrimos que somos um só ser - fizemos uma revascularização. 

Sei que ainda lembras. Era uma tarde de outono e nos encontramos no lugar que se preparava para receber a primavera. O vento forte e carinhoso soprava as folhas caídas para rejuvenescimento, tal como Neruda escreveria os primeiros versos de um poema: cheios do húmus do amor.

Tua mão trêmula parecia receber ligação direta do pulsar agitado do meu coração. Éramos pura emoção, e nos dividíamos em algo que, em verdade, parecia nos unir.
Nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez. Bebendo as nossas almas e sonhando nossos sonhos infinitos transportados pelas estrelas cadentes. O pouso seguinte nos separava de nós deixando marcas e tatuagens que jamais se apagarão.

Aquele balanço! Lembra dele?

Uma câmara do estepe guardada na mala do carro e alguns metros de fio nos levavam para a tenra idade. Balançávamos enquanto ríamos, reforçando em nós a felicidade.

Folhas amarelecidas tomaram nosso lugar de assento

Voltei ontem ao local, depois de ter conseguido falar contigo na via láctea. Acho que, por algum momento fiz confusão – estavas muito rápida e querendo se transformar em cadente, mas ainda assim, conseguimos conversar.
Como prometeste que viria, voltei ao nosso lugar de encontros. Esperei. Esperei e esperei muito. Mas, ainda que não tenhas ido, continuarei comparecendo,

 

Usarei o balanço da câmara, como de hábito, como se contigo estivesse ali, balançando. Depois, com certeza limparei as folhas que tomam nossos lugares no nosso banco e, sentarei. Continuarei esperando.

A feira, a bodega e nossos velhos hábitos

Escrito por Mhario Lincoln em 01/09/2015

 

José de Oliveira Ramos

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Feira dos Paraíbas (no Pavilhão de São Cristóvão) no Rio de Janeiro

Dia desses, procurando fugir um pouco do dia-a-dia estafante de um aposentado, principalmente pelo ócio, peguei meu matulão, botei uma garrafinha d´água (antigamente, na minha roça, era uma cabaça), uns punhados de farinha seca e um naco de rapadura melada e me mandei para Barreirinhas, distante algumas horas de São Luís. É algo maravilhoso. Bonito de ver. Mas, carece de infraestrutura para pretender servir ao Turismo. O que existe de belo, é apenas o trabalho da Natureza. O homem só tem usufruído e ainda não teve ideias para por a mão e fazer algo melhor.

Como a folhinha marcava um feriadão, prossegui viagem, e fui até Parnaíba, onde a mão Divina também é pródiga, e pinta tudo com todas as cores do arco-íris. De Parnaíba até Luiz Correia é um piscar de olhos. E, melhor, se você sair de Parnaíba e abrir os olhos só quando estiver em Luiz Correia, vai ver uma das coisas mais lindas que existem no mundo. Mais um trabalho de Deus, aquele que tudo pode, tudo vê, e tudo pinta.

E, sem pretender discutir preferência ou escolha de ninguém, ao retornar para casa, vinha tentando encontrar uma resposta para a pergunta que fiz a mim mesmo: como algum brasileiro pode preferir atravessar o Atlântico para ir a Miami, Califórnia ou Nova Iorque e deixar de lado e fora das vistas, maravilhas como as que temos no Brasil?