Jumento e Pote D'água

Escrito por Mhario Lincoln. em: 01/02/2015 | Atualizado em: 01/02/2015

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Por José de Oliveira Ramos

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Um jumento com cambitos, um pote, uma cabaça e um “caminho d´água”!

 

As coisas acontecem no Brasil – sempre! – com efeito dominó ou como cortina de fumaça. Parecem adrede programadas. O fato novo é sempre maior e mais preocupante que o anterior. Isso tem alguma explicação?

 Podemos listar. O foco era o “mensalão”, onde os sem-escrúpulos reforçados pelos sem-vergonha a serviço sabe-se bem de quem, se uniram numa força-tarefa hercúlea para puxar o tapete do Joaquim, com o objetivo de tirá-lo do caminho que as evidências sempre apontavam: o Palácio do Planalto.

 Joaquim pegou o boné e o caminho de casa – e nem foi morar no apartamento de Miami como garantiam os venenosos. Lutar contra onda tsunâmica é coisa para Deus, deve ter pensado o agora Ministro aposentado.

 O foco passou a ser o “petrolão” com o rastilho da pólvora aceso pelo doleiro Alberto Youssef com explosivos acionados nos catres de ministros, governadores, senadores e, de novo, caminhando célere para o Palácio do Planalto.

 Como pólvora queima rápido, e o estrago é mais devastador que os explosivos utilizados pelos assaltantes (ops!!!) de bancos, numa bifurcação milimétrica, quase matemática, o foco mudou para a crise energética que envolve, também, uma crise no abastecimento d´água não apenas no sudeste.  Acredite: ninguém no Palácio do Planalto sabe de nada. Ninguém nunca soube de nada.

 Seria por isso que já não se fala tanto no “mensalão” e muito menos nas condenações e prisões dos envolvidos?

 Mensalão e Petrolão não atingiram tão rapidamente o “povão” – e, para chamar mais atenção, nenhum escândalo que se preze pode deixar o “povão” de fora, apenas assistindo pela televisão. Diante da “crise hídrica e de energia”, até mesmo o número de idiotas que perdem tempo vendo o BBB da Globo caiu assustadoramente. O foco é a crise da água!

 Mas, que crise de água é essa, que não chega ao Morumbi, a Higienópolis, Ipanema, Copacabana, Leblon, onde, provavelmente, se toma banho de espumas com essências e se bebe Perrier?

 Por que essa crise só atinge a quem mora na periferia?

 

“Buscando” um caminho d´água

 

Dito isso, nos transportamos para os anos 50 e 60. Os arrumadores de confusão só conheciam duas classes sociais: o rico e o pobre. E estavam sim, bem definidas. Hoje já existe classificação social para classes A, B, C, D, E, e, se formos menos reais que o Rei, chegaremos facilmente à classe “M”. Eme de merda! Aqueles que estão na própria e vivem no cabresto dos “bolsas”.

Queimadas era um povoado pouco habitado de Pacajus, interior do Ceará. Hoje é conhecido como Horizonte, e virou município. Município da Região Metropolitana de Fortaleza. Foi ali que vivemos nossa infância pobre, mas digna, e aprendemos que só devemos nos ajoelhar para Deus.

- Meu fio, bote os cambitos no Mimoso (o jumento!), aprume os tonel e vá buscar dois caminhos d´água no açude. Avie menino, se arrexe que a água é prumode fazer o dicumê d´ocês! Ordenava a avó, figura esbelta de quase dois metros de altura.

- Aonde tão os cambito, vó? Indagava o neto.

- Percure pela aí, minino. Ande, se arrexe. Vou cuspir no chão, visse. Quandi o cuspe secar, têja aqui de vorta!

E esse panorama só mudava quando a seca ficava braba e, em vez de procurar água mineral Perrier, nós procurávamos mesmo era a raiz da mucunã, verdadeiros mananciais d´água na caatinga.

 

Essa água mineral é item fora da “crise”

 

Pois bem. Quem é brasileiro e foi ensinado pelos pais a devolver para o mesmo lugar até aquilo que “achava” em algum lugar, e nunca puxou saco de quem quer que seja para viver uma vida de fantasia e de mentiras ostentando um status social que não tem, aprende, realmente, que essas crises nunca passaram de fórmulas ridículas para fazerem desaparecer outras.

 

 

Banho de espuma faz esquecer a crise

 

Comentários  

0 #16 São mausJosé de Oliveira Ram 01-02-2015 20:16
Fortunato - obrigado pela presença. Em todas profissões existem os bons e os maus. Ser mau ou bom, é uma questão de opção, de formação familiar e de caráter. Os pais de hoje cederam o direito de criar os filhos para o Estado e vivem alegando que não tem tempo para cuidar da família - quando sobra algum tempinho, é para o chopp ou para a pelada. E vida que segue.
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0 #15 Puta QPJosé de Oliveira Ram 01-02-2015 18:52
Zé Lago: companheirão, obrigado pela generosidade da leitura da matéria. Seríamos imbecis com carteirinha assinada se não soubéssemos que os problemas de desmatamento e poluição estão complicado a vida de quem está neste Planeta. Mas, o que mais prejudica é o desperdício - que os gestores nada fazem para combater. Detalhe: o Governador de São Paulo esteve reunido com a Presidente Dilma e, em vez de apresentar soluções imediatas, "pediu dinheiro" (e parece que conseguiu).
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0 #14 Crise06José de Oliveira Ram 01-02-2015 16:33
Dr. Carlos Krogran: inicialmente, muito obrigado pela leitura da matéria. É um prazer tê-lo aqui.
Além de por em dúvida essa "crise" não podemos deixar de lado o mau gerenciamento desse problema. Houve uma diminuição do nível de poluição do Tietê, mas não aconteceu nada relevante em termos de "educar e alertar" o consumidor para um bem que, nesses casos, é finito. Água acaba.
Mas, o foco principal da matéria é mostrar que, se a crise existe, existe apenas para a periferia. Até hoje ninguém produziu matéria mostrando dificuldades no Morumbi ou em Higienópolis, de onde se conclui que, ali não existe crise.
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0 #13 CRISE06Dr. Calos Krogran 06 01-02-2015 13:31
Caro jornalista.
Gostaria de desmistificar alguns pontos sobre a crise hídrica em SP, assunto que tangencia as pesquisas acadêmicas de Gabriel Kogan.

1- “Não choveu e por isso está faltando água”. Essa conclusão é cientificamente problemática. Existem períodos chuvosos e de estiagem, descritos estatisticamente. É natural que isso ocorra. A base de dados de São Paulo possibilita análises precisas desde o século XIX e projeções anteriores a partir de cálculos matemáticos. Um sistema de abastecimento eficiente precisa ser projetado seguindo essas previsões (ex: estiagens que ocorram a cada cem anos).
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0 #12 CRISE05Dr. Calos Krogran 05 01-02-2015 13:31
2- “É por causa do aquecimento global”. Existem poucos estudos verdadeiramente confiáveis em São Paulo. De qualquer forma, o problema aqui parece ser de escala de grandeza. A não ser que estejamos realmente vivendo uma catástrofe global repentina (que não parece ser o caso esse ano), a mudança nos padrões de chuva não atingem porcentagens tão grandes capazes de secar vários reservatórios de um ano para o outro. Mais estudadas são as mudanças climáticas locais por causa de ocupação urbana desordenada. Isso é concreto e pode trazer mudanças radicais. Aqui o problema é outro: as represas do sistema Cantareira estão longe demais do núcleo urbano adensado de SP para sentir efeitos como de ilha de calor. A escala do território é muito maior.
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0 #11 CRISE04Dr. Calos Krogran 04 01-02-2015 13:30
3- “Não choveu nas Represas”. Isso é uma simplificação grosseira. O volume do reservatório depende de vários fluxos, incluindo a chuva sobre o espelho d’água das represas. A chuva em regiões de cabeceira, por exemplo, pode recarregar o lençol freático e assim aumentar o volume de água dos rios. O processo é muito mais complexo.
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0 #10 CRISE03Dr. Calos Krogran 03 01-02-2015 13:29
4- “As próximas chuvas farão que o sistema volte ao normal”. Isso já é mais difícil de prever, mas tudo indica que a recuperação pode levar décadas. Como sabemos, quando o fundo do lago fica exposto (e seco), ele se torna permeável. Assim a água que voltar atingir esses lugares percola (infiltra) para o lençol freático, antes de criar uma camada impermeável. Se eu fosse usar minha intuição e conhecimento, diria que São Paulo tem duas opções a curto-médio prazo: (a) usar fontes alternativas de abastecimento antes que possa voltar a contar com as represas; (b) ter uma redução drástica em sua economia para que haja diminuição de consumo (há relação direta entre movimento econômico e consumo de água).
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0 #9 CRISE02Dr. Calos Krogran 02 01-02-2015 13:29
5- “Não existe outras fontes de abastecimento que não as represas atuais”. Essa afirmação é duplamente mentirosa. Primeiro porque sempre se pode construir represas em lugares mais e mais distantes (sobretudo em um país com esse recurso abundante como o Brasil) e transportar a água por bombeamento. O problema parece ser de ordem econômica já como o custo da água bombeada de longe sairia muito caro. Outra mentira é que não podemos usar água subterrânea. Não consigo entender o impedimento técnico disso. O Estado de São Paulo tem ampla reserva de água subterrânea (como o chamado aquífero Guarani), de onde é possível tirar água, sobretudo em momentos de crise. Novamente, o problema é custo de trazer essa água de longe que afetaria os lucros da Sabesp.
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0 #8 CRISE01Dr. Calos Krogran 01 01-02-2015 13:28
6- “O aquífero Guaraní é um reservatório subterrâneo”. A ideia de que o aquífero é um bolsão d’água, como um vazio preenchido pelo líquido, é ridiculamente equivocada. Não existe bolsão, em nenhum lugar no mundo. O aquífero é simplesmente água subterrânea diluída no solo. O aquífero Guaraní, nem é mesmo um só, mas descontínuo. Como uma camada profunda do lençol freático. Em todo caso, países como a Holanda acham o uso dessas águas tão bom que parte da produção superficial (reservatórios etc) é reinserida no solo e retirada novamente (!). Isso porque as propriedades químicas do líquido são, potencialmente, excelentes.
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0 #7 CRISE0Dr. Calos Krogran 0 01-02-2015 13:27
7- “Precisamos economizar água”. Outra simplificação. Os grandes consumidores (indústrias ou grandes estabelecimentos, por exemplo) e a perda de água por falta de manutenção do sistema representam os maiores gastos. Infelizmente os números oficiais parecem camuflados. A seguinte conta nunca fecha: consumo total = esgoto total + perda + água gasta em irrigação. Estima-se que as perdas estejam entre 30% e 40%. Ou seja, essa quantidade vaza na tubulação antes de atingir os consumidores. Água tratada e perdida. Para usar novamente o exemplo Holandês (que estudei), lá essas perdas são virtualmente 0%. Os índices elevados não são normais e são resultados de décadas de maximização de lucros da Sabesp ao custo de uma manutenção precária da rede.
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