Tem gente insatisfeita com o Papa Francisco

Escrito por Mhario Lincoln. em: 22/04/2015 | Atualizado em: 23/04/2015

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“Há setores da Igreja dos Estados Unidos que estão inquietos com o Papa Francisco”. Entrevista com Austen Ivereigh
Austen Ivereigh defende que a grande mudança que está em andamento com o Papa Francisco é uma transformação cultural dentro da Igreja, embora admita que ainda há resistências na cúria e as reformas levarão anos.


Fonte: http://bit.ly/1IymNru


Austen Ivereigh conhece bem a Igreja argentina. Sua tese de doutoramento em Oxford foi precisamente sobre a relação entre Igreja e Política nesse país. Por isso, pouco depois que Jorge Mario Bergoglio aparecesse na sacada da Basílica de São Pedro convertido em Francisco, alguém lhe sugeriu que devia escrever um livro sobre ele. E aceitou o desafio, porque, segundo Ivereigh, é impossível entender o atual Pontífice sem entender sua origem argentina.
Esta semana, o jornalista e também fundador do movimento Vozes Católicas esteve no Chile para o lançamento da edição em espanhol do seu livro O Grande Reformador (1) onde mergulha na formação do atual Papa e em seu projeto de mudança na Igreja católica. Um objetivo que converteu Francisco em um fenômeno em nível mundial, mas que também despertou receios na cúria romana, onde muitos ainda estão desconcertados com suas reformas.
A entrevista é de Juan Paulo Iglesias M. e publicada por La Tercera, 18-04-2015. A tradução é de André Langer.

 

 

O título do seu livro é O Grande Reformador. O Papa Francisco já completou dois anos de pontificado. Qual é a grande reforma do atual pontífice?
A grande reforma é uma mudança de cultura dentro da Igreja. Que a Igreja seja uma instituição que na proclamação de sua própria verdade e que saia em busca das pessoas, em vez de confiar simplesmente em seus documentos. Que mostre o rosto misericordioso de Deus não apenas por meio de palavras. Que toda a cultura da Igreja se converta nessa finalidade evangelizadora. Eu creio que essa é a principal reforma que está buscando. Agora, há outras reformas que está colocando em prática no Vaticano, que são úteis para esse fim. São necessárias, importantes, mas não é o que mais o anima.

 

Acredita que era essa a reforma que os cardeais esperavam quando o elegeram?
De alguma maneira pode-se dizer que o discurso que pronunciou na véspera do conclave, que, no livro, um pouco brincando, chamo de Gettysburg papal, cristalizou essa eleição. A questão é a seguinte: eles queriam um reformador? E a resposta, sem dúvida, é: eles queriam um líder, um governador, alguém que reformasse o Vaticano, é verdade. Mas também estavam buscando alguém que pudesse tornar a Igreja confiável no novo contexto contemporâneo. Nesse sentido, acredito, como dizemos em inglês, “they don’t have byers remorse”. Ou seja, não se arrependem do que compraram. Mas eu penso que muito poucos deles esperavam o que aconteceu depois. Muito poucos poderiam ter antecipado o torvelinho que foi o pontificado de Francisco.

Este torvelinho de que fala teve muito efeito fora da Igreja católica, em setores que não são católicos, mas gerou críticas em alguns grupos dentro da Igreja. Existe o risco de que acabe afastando setores dentro da própria Igreja ou provocando divisões?
É evidente que o mundo está fascinado com Francisco. O fato de que saísse na capa da The Advocate (revista gay estadunidense, N.R.) demonstra isso. O cardeal Timothy Dolan, de Nova York, que é bastante grande, me disse que ver o Papa na capa da The Advocate era um pouco como vê-lo estampado na capa de uma revista esportiva usando um traje de banho. Não há dúvida de que o mundo está fascinado, mas isto traz também a preocupação de muitas pessoas que dizem: se as pessoas que normalmente são hostis à Igreja gostam deste Papa, este Papa deve estar diluindo ou deformando as proposições da Igreja. Mas, na verdade, não é assim. As pessoas estão fascinadas com Francisco, mas sabem realmente o que ele representa? Não, certamente não. Muitos projetam seus próprios interesses e estão se decepcionando ao mesmo tempo. Pode-se dizer que o Papa Francisco está fazendo com que a Igreja seja muito mais atraente para o mundo e isso em si mesmo é uma coisa boa, mas depende da Igreja aproveitar isso. O Papa só pode limpar a vitrine para que as pessoas enxerguem melhor a Igreja, mas o que acontece depois não está em suas mãos.

Você aborda em seu livro as origens do Papa e destaca o fato de que seja argentino. Para João Paulo II foi decisivo que viesse da Polônia em uma época marcada ainda pela Guerra Fria. Em que medida é decisiva a origem argentina de Francisco?

O Papa é muito argentino, muito portenho. Tem características muito típicas de Buenos Aires em particular. Eu sempre disse que João Paulo II era incompreensível sem a história trágica da Polônia do século XX e é difícil entender o Francisco sem entender a história e a cultura argentina. O que Francisco sempre dizia antes de ser Papa é que quando alguns argentinos se reúnem sempre haverá uma interna. E esse partidarismo, as divisões ideológicas fazem parte do que ele é. Ele passou grande parte da sua vida como jesuíta, como cardeal e arcebispo, refletindo sobre como formar corpos. Esse é o grande tema ds sua vida. Desde os seus primeiros escritos o tema está aí. Essa vocação para unir. Então, ele é em parte assim porque viveu em uma sociedade e em uma Igreja muito divididas. Por isso, eu digo no livro que ele representa hoje a melhor oportunidade de unificar a Igreja e vai fazer isso apelando não a um lado ou outro, mas fazendo com que se concentrem nas necessidades dos pobres, deixando de ter fé nas ideologias e concentrando-se nas necessidades pastorais e práticas das pessoas comuns. É o que está fazendo como Papa. Os que estão contra ele são sempre as elites. O povo, ao contrário, é diferente. Quando se vai a Roma se vê como as pessoas comuns o aceitam de imediato, sentem-se identificadas com ele.

Há um medo da mudança nessas elites?
Certamente. Quem se sente ameaçado por este Papa são precisamente as elites que têm interesses investidos em uma determinada forma de ser. Refiro-me, por exemplo, aos que ocuparam durante muito tempo, sobretudo na América do Norte, um lugar nas chamadas guerras culturais. Eles, que veem as coisas como uma batalha, querem um Papa que os reforce. Para eles, Francisco é desconcertante. É preciso entender que nenhum Papa é popular, afinal todos os Papas acabam ofendendo certa parte. Para mim, o critério é este: se o Papa ofende os mais ideologizados e as elites provavelmente está fazendo algo de bom, porque todos, e me incluo, se sentem desafiados por este Papa.

Você fazia referência ao caso dos Estados Unidos, país em que se ouviu algumas das críticas mais duras contra o Papa, precisamente porque alguns representantes da Igreja querem um Papa que seja claro em suas colocações, que não dê espaço a leituras duplas...
É uma mistura de coisas. Os norte-americanos estão encantados com Francisco e os católicos também. As pesquisas mostram que é tão popular quanto João Paulo II em seu apogeu. Agora, certos setores da Igreja norte-americana estão muito preocupados com ele. São as pessoas que se beneficiam muito com o mercado, que financiam muitas organizações católicas e que pensam que Francisco não entende o livre mercado. Suspeitam que é um peronista, estatizante, socialista. Por isso, há certo nervosismo em relação à visita do Papa em setembro, porque temem que o Papa não os entenda.

E a partir de seu trabalho, você acredita que o Papa entende o livre mercado, entende a sociedade norte-americana?
O cardeal Dolan me perguntou se Francisco ou Bergoglio havia falado ou escrito sobre os Estados Unidos. Penso ter lido a maior parte, talvez 90%, do que este Papa escreveu, e nunca se refere aos Estados Unidos. Até certo ponto tem razão. É um Papa que desconhece relativamente os Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, o que eu disse ao cardeal Dolan é que vocês são todos americanos, eu sou o estrangeiro aqui. Ele é filho de imigrantes italianos que foram para o Novo Mundo e visto da Europa há muito em comum entre as Américas. Estou certo de que Francisco está se preparando muito bem para esta viagem e creio que a visita de setembro será um momento muito importante deste pontificado, especialmente porque a Igreja norte-americana está muito dividida.

O Papa parece ser um grande improvisador. Acredita que realmente é improvisação ou são comentários muito bem refletidos?
Ele fala espontaneamente, isso é verdade, mas diz pouquíssimas coisas que realmente me surpreenderam, no sentido de que está dizendo coisas que já disse ao longo dos anos. Ele está ensinando quando fala. Alguns dizem que não está ensinando, mas dando apenas sua opinião, mas não, eu creio que sempre está ensinando, embora o faça dessa forma informal e espontânea. O que fascina nele é que como arcebispo não era espontâneo. É introvertido e quando jesuíta chamavam-no Mona Lisa, porque nunca manifestava o que pensava. É uma pessoa muito calorosa, mas ao mesmo tempo muito hermética. Como bispo, nunca dava entrevistas.

O que explica a mudança, então?
O que aconteceu entre o Bergoglio de Buenos Aires e o Francisco de Roma? Há muitas suposições, mas no livro eu narro a história de como saiu da Capela Sistina, com a expressão de ter um grande peso sobre seus ombros, e entrou na Capela Paulina com o cardeal Hummes. Mais tarde saíram e tinha outra expressão. Isso é descrito por um homem que estava filmando tudo. E Francisco mesmo falou dessa experiência. Uma experiência que o mudou, o deixou com uma nova liberdade. Se perguntar aos cardeais que o conhecem bem em Roma todos lhe dirão que o Papa é incrivelmente livre. O que mais as impressiona é sua liberdade. Eu vejo isso em termos místicos. É uma mudança substancial na sua forma de ser.

Nos primeiros meses, após sua chegada, assegurou-se que havia certa resistência na cúria às mudanças que estava propondo. Dois anos após sua eleição, como é o ambiente hoje na cúria?
Creio que é muito problemático. Há muitos que estão muito desconcertados com este Papa. Há muitos que estão dizendo, bom, acontece, chegou este Papa de Buenos Aires, mas eventualmente morrerá ou passará e as coisas voltarão a ser como antes. Eu creio que essa é a principal resistência a ele em Roma. No entanto, também não devemos exagerar, porque os que trabalham na cúria também estão conscientes da necessidade da reforma e creio que tem bastante apoio. As reformas financeiras foram claramente um sucesso e afetaram determinados interesses. Isso foi evidente nos vazamentos à mídia nos últimos meses. Então se poderia dizer que se os interesses estão sendo afetados, então isso quer dizer que a reforma está funcionando. O Papa tem o desafio de realizar uma mudança de cultura no Vaticano e necessita do apoio dos que ali trabalham. Mas ao mesmo tempo tem que ser firme. Muita coisa depende da reforma estrutural da cúria. Ele entregou essa responsabilidade ao Conselho dos nove cardeais, mas eles estão demorando muito...

Justamente ia lhe perguntar sobre a reforma na cúria. Falou-se em alguma oportunidade que em fevereiro seria apresentada a proposta, mas ainda não se sabe de nada. Em que pé está o tema?
Eu estive aí em fevereiro e o cardeal Rodríguez Maradiaga compartilhou com os outros cardeais as propostas e era evidente que os planos não estavam muito maduros. É muito complexo legalmente, burocraticamente. A reforma da cúria vai levar anos, mas espera-se que antes de dezembro haja pelo menos uma arquitetura básica. O que se está pensando é que haverá duas novas congregações, que vão incluir a maioria dos Pontifícios Conselhos existentes e que o chefe da congregação terá que ser um cardeal, mas o secretário pode ser um leigo, inclusive uma mulher. A nova estrutura deve mostrar as prioridades da Igreja que Francisco busca.

Ainda não se está trabalhando então em uma nova constituição.
Creio que não. A reestruturação tem que ser esclarecida e só então se poderá modificar legalmente a atual Constituição.

O Papa disse há poucos dias que ele pensava que o seu papado seria curto. Isso obriga então a agilizar os tempos da reforma?
Antes que algumas pessoas próximas a ele o dissessem publicamente, disseram-me a mesma coisa: que ele está pensando em um pontificado de cinco anos. É uma intuição que ele tem, mas pode ser que precise de mais tempo. Agora me parece realista um pontificado de poucos anos considerando sua idade e seu estado físico.

Mas não teve graves problemas de saúde?
Tem estado bem, mas tem vários problemas, um coração um pouco frágil, sofre de ciática e tomou medicamentos para a sua ciática que o fizeram engordar. Seu médico lhe disse que não deve mais comer massa, apenas um ou duas vezes por semana. O cardeal Dolan disse que deveria trocar de médico. Uma pessoa muito próxima a ele me disse que muitas vezes não consegue fazer sua sesta e quando isso acontece fica muito cansado.

Um tema que gerou polêmica no Chile é a nomeação do bispo Juan Barros para a diocese de Osorno. Acredita que o Papa previa o efeito que teria?
É impossível que não o tivesse previsto, porque vários bispos falaram com ele colocando-o a par da situação, explicando as consequências. Por isso, cheguei à conclusão de que este é um dos casos em que ele tomou uma decisão muito difícil, mas acredita que é uma questão de justiça. Como disse o Vaticano, não há nenhum obstáculo. Isto significa que não há nenhum caso, que não há nenhum processo contra Barros. Nesse sentido, é inocente, e o princípio da Igreja, como de toda a sociedade ocidental, é que alguém é inocente até que se prove o contrário. Neste caso, não se trata de um padre que foi nomeado bispo, mas de um bispo que foi transferido. Se não lhe tivessem dado uma diocese teria significado um castigo e como não era culpado de nada legalmente isto teria sido injustificado. Por isso, creio que tomou a decisão que ele acreditava que devia tomar em justiça.

Mas, com altos custos de imagem.
Visto de um ponto de vista pragmático, político, de relações públicas, é uma decisão totalmente incompreensível e injustificada, porque o dano foi muito grande, tanto para a imagem da Igreja chilena como para a sua própria política de proteção de menores. Mas é em momentos como esse que a gente se dá conta de que embora seja muito hábil politicamente, não é um político, é o Papa e o Papa toma as decisões que ele acredita que Deus deseja que tome. O terá feito após muita oração e discernimento e está disposto a assumir as consequências. Seu objetivo não é ser popular, mas fiel, e isso é típico dele. Tem a coragem de viver em tensão. Isso é o que mais me impactou. Tem uma grande capacidade de tomar as decisões que julgar necessárias de forma solitária e assumir as consequências.

Portanto, não acredita que haja espaço para uma mudança de opinião?
Falando como seu biógrafo, uma vez que Francisco toma uma decisão é muito difícil que se retrate. Agora, a próxima pergunta é: como isso vai terminar? A verdade é que não sei. Eu conheço bem um dos integrantes da comissão de proteção de menores, Peter Saunders, um britânico, um homem fantástico. Ele foi a Roma no domingo para encontrar-se com o cardeal O’Malley e pude me comunicar com ele. Parece que está muito satisfeito, porque se sente ouvido e O’Malley vai transmitir suas preocupações ao Papa. O problema é que o Vaticano não presta contas a ninguém sobre a nomeação de bispos, e não pode. O Vaticano não pode explicar como chegou à decisão porque, do contrário, teria que fazê-lo com todas as nomeações de bispos. Eu espero que não cheguemos ao ponto de que Peter sinta que por razões de integridade tem que deixar a comissão. É nesses momentos que temos que reconhecer que estamos em uma instituição hierárquica. A decisão deve ser tomada pelo Papa e não precisa prestar contas por isso. Nós, como católicos, temos a opção de obedecê-la.

A renúncia pode ser uma saída?
Sim, a única saída é que Barros em algum momento apresente sua renúncia, caso achar oportuno... Agora, não sei se ele tomaria essa decisão, porque, pelo que me disseram, ele assume isso como uma espécie de martírio. Então, se em algum momento sobreviesse uma crise mais grave, alguém teria que lhe propor essa opção.

 

Recuperado da página do IHU.

1.- Nota da IHU On-Line:
O livro, publicado no final de 2014, intitula-se, no original "The Great Reformer: Francis and the Making of a Radical Pope". O livro já foi traduzido para o italiano e o espanhol.
O livro, segundo a nossa opinião, é importante, até imprescindível, para compreeder o pontificado do Papa Francisco. Por isso, temos publicado tantas resenhas e avaliações do livro

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