Putz Rafão, esse livro me faz bem!

Escrito por Mhario Lincoln. em: 07/05/2015 | Atualizado em: 07/05/2015

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Na foto, Eu e a poeta Vanice Zimerman Ferreira ladeados pela atriz Carla Ramos (Senhora Alegria)

e Walaci Santos (Vendedor de Canetas). À frente o autor Rafão Miranda e seu filho. (Parabéns)

 

 

 

(*) Mhario Lincoln

Caminhava em direção à Rua Riachuelo para atingir a Marechal Deodoro, onde resolveria pendências bancárias. Cabeça à mil. De repente, no meio do Passeio Público, sentei no primeiro banco que avistei. Cruzei as pernas e abri aleatoriamente o livro.

Um susto! Num mesmo texto o autor misturava o algodão das nuvens com espada ninja para, ao fim, “com letras ainda rabiscadas” escrever “no cantinho: AMO-TE”. Bummm. O gênio da lâmpada me traz de volta algo muito parecido com as extravagâncias nas telas de Salvador Dali. Mas, nem só disso vive letras e parágrafos, ali, impressos.

 

Depois, com a alma cheia de romantismo, o autor desaba como cachoeira alta num romantismo de percepções extraordinárias, mas sem perder sua origem dalisiana, tipo, ”vejo o mundo através de um exército de Flores (...)”.

Uma percepção do simbolismo extraordinária, ainda, quando cita às págs. 55: ”O menino chorava na festa de aniversário (...) com sua cabeça totalmente careca e colorida. Ele chorava...”.

Pronto! Esta é a veia orgânica do livro VENDEM-SE CANETAS PARA ESCRITORES, de Rafael Miranda (Rafão Miranda), com lindo prefácio de Vanice Zimerman Ferreira, lançado pelo Instituto Memória & Projetos Culturais, do editor Anthony Leahy, sem dúvida, um cara cuja cabeça absorve, entende e compreende projetos especiais como esse, não tão fáceis de serem encontrados no cotidiano da linguagem poética brasileira.

Aliás, Vanice foi feliz ao destacar em seu prefácio a “sensibilidade, imaginação e criatividade do autor”. E mais: “(...) e suas inúmeras mágicas combinações aquarelando lugares, personagens e lembranças (...)”.

Imediatamente imaginei-me lendo uma tela de Salvador Dali, no período em que via as coisas de forma distorcida da realidade, mas com um altíssimo grau de abundância memorial, obrigando o expectador a gerir seu pensamento, mas de forma pessoal. Cada um entende de uma forma – a forma deformada – de Dali.

Assim é em VENDEM-SE CANETAS PARA ESCRITORES, de Rafão Miranda. “Caiu da cama e descobriu que não tem superpoderes”. Extraordinário discípulo de Edgard Alan Poe, quando escreve - “A solidão da eterna fase adulta! Quando vivemos no castelo da solidão” - (mais) um pedaço envolvente de Robert Zemeckis, em EXPRESSO POLAR, quando Rafão escreve: “Na vida, nada é impossível. E não existe escolha errada”, (mais) um romantismo pueril de Antoine de Saint-Exupéry, em O PEQUENO PRÍNCIPE, ao ditar em págs.59, ‘Uma conversa com a Senhora Alegria”.

Tudo neste livro de Rafão Miranda é surpreendente, tipo, me fazer lembrar de Constantin Balmont, poeta russo, simbolista, em seu livro VENTO, escrito há muito tempo. “Viver o presente eu não posso/Amo o turbamento de meus sonhos”, disse Constantin numa linha invejável, onde só uma cabeça cheia de cores e canetas coloridas – como a de Rafão – poderia seguir.

No fundo, VENDEM-SE CANETAS PARA ESCRITORES, de Rafão Miranda, com personagens tão íntimos, como o vendedor de canetas e a senhora alegria, por exemplo, nada mais é do que algo extraído de seu peito, de sua angústia, de sua solidão, de seus amores os quais passeiam entre a mãe e as mulheres da sua vida, com quem conviveu/convive.

Para Arthur Schopenhauer, “(...)palavras ordinárias são usadas para dizer coisas extraordinárias...”, e isso Rafão faz com extraordinária beleza. Mas essa beleza é, sim, o resultante de toda essa máquina íntima, cuja engrenagem o fez mover o coração na forma mais angustiante: Por para fora o que lhe afogava o espírito. E isso foi feito. Aliás, "(...) não se pode escrever nada com indiferença", como disse Simone de Beauvoir.

Rafael Miranda, o nosso Rafão, segue o conceito de Beauvoir. Seu livro é a sua cara (um pouco mais por dentro, claro). E o escreveu sem indiferenças, mas de forma corajosa, nem sempre obrigatoriamente extraordinária, como em ”Elefantes lilases entram sem responsabilidade alguma dentro de um formigueiro. Que por acaso se descobre que são túneis coloridos, que é proibido por lei”, mas, também, de forma incrivelmente simbólica como em: “Ele era um pé de alface! Ela um dente-de-leão! ” Ou “O amor. Filho de mágico! Mãe da Alegria! Agora no lago das cores eternamente na imaginação”.

Volto a Schopenhauer só para lembrar uma coisa interessante: “(...) se alguém lê continuamente, sem parar para pensar no que foi lido, não cria raízes e se perde em grande parte".

Putz, Rafão, como esse livro me faz bem! ...

 

Mhario Lincoln Santos é jornalista, escritor e poeta

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Comentários  

0 #3 COMO FOSSE O QUE ÉOsmarosman Aedo 12-07-2015 18:38
Aproveitando da mistura, da simbologia, da intervenção humana, da fantasia de hoje, dos ilimites da criatividade, o autor Rafão MIranda realmente nos atravessa sem ponte, de um lado para o outro da sua imaginação. Parabéns ao autor e a todos que colaboraram para que esta obra se tornasse pública e com esse formato vanguardista.
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0 #2 Fotos poema e slide showVanice Zimerman 08-05-2015 22:33
Boa noite Mhario Lincoln, linda interação que fez inspirada em minha foto! Muito obrigada também, por postar a foto do meu perfil no slide show. Belo site, parabéns! Um ótimo fim de semana! Abraços, Van.
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0 #1 AgradecimentoVanice Zimerman 07-05-2015 10:31
Bom dia Mhario Lincoln, a análise do livro "Vendem-se Canetas para escritores" está interessante e linda!! Agradecemos a atenção e carinho.
Parabéns também, pelas divulgações dos outros livros e eventos! Um forte abraço,Vanice
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