Escolarização versus educação

Escrito por Mhario Lincoln. em: 06/06/2015 | Atualizado em: 06/06/2015

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 José de Oliveira Ramos

 

 

 

 

Qual é o dia do aniversário do seu filho?

Você deu um bom presente; um presente caro; um presente útil; prometeu uma viagem a Miami ou umas férias maravilhosas no Caribe – tudo isso se ele conquistar boas notas na escola?

Mas, espere um momento. Tirar boas notas não é uma obrigação de quem “apenas estuda”?

Essa é uma atitude de quem quer educar, ou de quem quer escolarizar um filho?

Se você quer realmente educar seu filho, será que é melhor presentear com um celular ou um smartphone de última geração – ou dar-lhe um bom livro e “exigir” que ele o leia?

Sei. Nesta frase acima, com 32 palavras, você certamente estranhou a palavra “exigir”. Você, moderno e liberal por natureza e acomodação, entende que “exigir” é algo antigo, reacionário para uma boa convivência com a família. Certamente você acha que, quem deve “exigir” alguma coisa do seu rebento, é a escola.

Pois, se você pensa realmente isso, confunde diuturnamente a “escolarização” com a “educação”.

Ou será que você, educado, moderno, inteirado com as coisas e os fatos, não consegue ver que, “escolarizar” é uma coisa – pertencente, sim, à escola; e, “educar” é outra – essa sim, de exclusividade da família?

Saiu de casa, dançou! – Há pelo menos quatro décadas, o mundo capitalista consumidor “emprenhou” (desculpas pelo termo chulo, mas só esse retrata a verdade que existe hoje) na educação da família brasileira que a mulher, peça importante em pelo menos 80% da “educação” dos filhos de uma família, precisava sair de casa e trabalhar fora para melhorar a renda familiar. E, sem ser pretensioso, este humilde Jornalista entende que essa é a grande mentira que semeou a desestrutura de muitos lares.

Pois, quem era que “vigiava” seu filho adolescente em casa e, quando necessário, o ajudava a fazer as tarefas escolares em cassa? Quem controlava a casa e, no final do dia, sentada numa cadeira colocada no portão o recebia em casa e lhe dava conta de tudo? Quem faz isso agora pela família?

Ah, sei, isso é coisa do passado?

Pois, se isso é cosia do passado, o seu futuro é bem conturbado – tanto quanto está sendo e que faz com que você responsabilize o Estado por tudo que acontece.

Veja um exemplo: crianças precoces que conseguem aprovação fácil; crianças precoces que se tornam eméritos em piano, saxofone, violino, instrumentos mil, quem os ensina e acompanha na disciplina e no aprendizado?

E, nem se iluda se, daqui alguns anos, a mesma mentalidade que “emprenhou” na pauta da família a necessidade da mulher sair de casa para trabalhar e melhorar a renda familiar e o padrão de vida, incutir, também na cabeça dessa mesma família (e da mulher em particular) que, depois de oito horas de trabalho fora de casa, o que ela faz em casa é uma tarefa “extra” e que precisa ser reconhecida e remunerada. Espere e verás!

Não vejam isso como machismo – as pessoas gostam muito de julgar e rotular pessoas e coisas. Jamais haveria pensamento contrário para uma mulher que estudou Medicina, Engenharia, Direito, Economia ou  tem formação que assegure melhor remuneração, em sair de casa para trabalhar e, aí sim, melhorar o padrão de vida – mas sem se desvencilhar da família, a sua base mais importante.

Agora, sair de casa para trabalhar detrás de um balcão; para dirigir ônibus ou táxis; para pentear cabelos num salão de beleza (e de muita feiura); para ser policial nas ruas da cidade – é o estrume que vai adubar a árvore da desestruturação familiar.

Quem corrige essa atitude não é a escola. É você!

E, anos depois, isso tudo vai te levar a estudar e discutir se é boa ou ruim, a alteração da maioridade penal. Tal como está sendo discutido (??!!) agora.

E isso tudo vai ficar claro para você quando não houver mais confusão entre uma coisa e outra – quando você entender que, quem “escolariza” é o Estado; e quem “educa” é a família.

Comentários  

+1 #13 Brasília DFJosé de Oliveira Ram 08-06-2015 17:19
Prof. Carlos Andrade: agradeço a gentileza do comentário e, mais ainda, a esclarecedora entrevista do Senador - que também já foi Ministro da Educação. A providencial mudança que deveria acontecer, entendo eu, tem muita ligação com a política. Acho que o nível de qualidade da escola pública não é muito diferente da escola particular, haja vista que os professores são quase os mesmos. Há uma deficiência muito grande, também, na qualidade de quem ensina (os professores). Eu estudei no Liceu do Ceará e, lá, nenhum aluno tinha a petulância de "peitar" professor. Se fizesse isso era suspenso e se repetisse a suspensão era expulso. E tem que ser assim, ou o Professor vira um palhaço. E qual é a mudança? Todo filho de político com mandato teria que estudar em escola pública. Aquele que não matriculasse o filho na escola pública, perderia o mandato. Entendo que, a partir daí, eles trabalhariam para mudar o nível dessas escolas.
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+1 #12 Zé DocaJosé de Oliveira Ram 08-06-2015 14:01
Zé Orlando: pois é, amigo. É isso sim. Veja que você recebe menos que a metade de um salário mínimo. Veja, também, que você não está preso cumprindo pena na cadeia, e quem está lado por ter cometido algum tipo de crime, ganha quase três vezes o que você recebe. Não discuto se isso é política partidária. Digo apenas que isso é Brasil.
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0 #11 Zé Doca _MAZé Orlando 08-06-2015 13:33
Cada Ministro entra e muda tudo. Outros tentam e não consegue. Outros enrolam e deixa a mesma mer.. de sempre. Ô país infeliz esse nosso Oliveira. Só rezando pra ver se a zica passa.
Zé Olando
Zé Doca-MA
professor aposentado
salário 342,00 com descontos
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0 #10 BRASÍLIA DFProf. Carlos Andrade 08-06-2015 13:30
Todos falam, José Oliveira, mas ninguém age como deveria agir. Se não vejamos. A entrevista é da BBC.

Um dos grandes defensores da educação como instrumento de transformação do Brasil, o senador Cristovam Buarque considera que o problema da violência na rede pública de ensino do país é gerado principalmente por causa da desvalorização da escola como instituição.
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0 #9 Vio9lênciaCristóvan Buarque 08-06-2015 13:29
BBC Brasil - Como o senhor define o problema da violência nas escolas do Brasil? Por que ele acontece?
Cristovam Buarque - A sociedade brasileira é uma sociedade muito violenta hoje, então as pessoas se sentem no direito de agir violentamente, às vezes, até não necessariamente com agressão física, mas com palavras.
As escolas estão rodeadas de traficantes, a violência do meio influencia. O outro é o fato de que a escola não é uma instituição valorizada e, ao não ser valorizada, as crianças também entram na mesma onda da não valorização, se sentem no direito de quebrar os vidros, se sentem no direito de levar as coisas pra fora.
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0 #8 Vio9lênciaCristóvan Buarque 08-06-2015 13:28
Aqui mesmo na UnB (Universidade de Brasília), eu vi a enciclopédia britânica sendo rasgada, porque o aluno em vez de tirar o xérox da folha que ele precisava, arrancou a página e levou. Os próprios professores são tratados como seres sem importância, que ganham salários baixos. Além disso os jovens sabem que saindo com o curso ou sem, de tão ruim que são os cursos, ele sabe que não agrega muito na vida dele. Os alunos não veem retorno da escola.
BBC Brasil - Quais as consequências da violência na escola para a educação no país?
Cristovam Buarque - A escola desvalorizada gera violência, e a violência desmoraliza ainda mais a escola. Os professores hoje estão fugindo, porque o salário é baixo e há muito desrespeito com relação à profissão deles. Quando a gente analisa o concurso para entrar na universidade, o vestibular, os últimos cursos na preferência dos vestibulandos são pedagogia e licenciatura, isso gera um clima de desvalorização.
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0 #7 Vio9lênciaCristóvan Buarque 08-06-2015 13:28
Para entrar em medicina são 50 por vaga, para pedagogia às vezes têm mais vagas que candidatos. Isso gera desvalorização. E aí as pessoas ficam quebrando as coisas, são violentas. Cria um ciclo vicioso. A desvalorização da escola aliada à violência do país induz à violência dentro da escola.
É preciso ter disciplina na escola, mas para o professor ser agente da disciplina, ele tem que ter moral. Só que a escola hoje está sem moral. Uma das coisas básicas da disciplina é o aluno chegar na hora. Como chegar na hora se nem o professor dele chega na hora? Se o professor dele ficou dois meses de greve?
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0 #6 Educação NacionalCristóvan Buarque 08-06-2015 13:27
O professor se vai um dia, não vai outro. A ausência do professor no Brasil é tão grande quanto a do aluno. Eles faltam igualmente. Então está faltando moral na escola.
BBC Brasil - Quais seriam as medidas a curto prazo para conter o problema?
Cristovam Buarque - Eu não vejo como resolver isso no curto prazo, só se for atribuindo Valium (calmante) para todo aluno, se colocar Valium na merenda. Brincadeira, mas é que é difícil ver uma solução a curto prazo. Qual o caminho a médio e longo prazo? Valorizar a escola, hoje o salário médio do professor na escola é R$ 2 mil, se você pagar menos do que paga para quem vai ser engenheiro ou médico, os melhores não vêm, eles não vão querer ser professores.
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0 #5 Educação NacionalCristóvan Buarque 08-06-2015 13:26
BBC Brasil - Aprovou-se no ano passado a medida de destinar 10% do PIB pra educação. Esse dinheiro é suficiente? Então qual é o problema da educação hoje em dia (se não é dinheiro)?
Cristovam Buarque - O problema é dinheiro, mas não é só dinheiro. Se chover dinheiro no quintal da escola, a primeira chuva vira lama. Se aumentar muito o salário do professor agora, isso não vai mudar nada. Precisa de todas ações juntas, a revolução mesmo da educação. Para pagar os R$ 9 mil (para os professores), para construir as escolas novas, você precisa de 6,5% do PIB (na educação de base, sem contar investimentos nas universidades).
Esse negocio de 10% do PIB foi uma farsa. Por que não colocaram 10% da receita? Porque ao dizer que é do PIB, ninguém sabe de onde vai sair o dinheiro. O PIB não existe, ele é um conceito abstrato de estatística.
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0 #4 Educação NacionalCristóvan Buarque 08-06-2015 13:25
Para fazer a revolução a qual eu me refiro, nós precisamos para a educação de base R$ 441 bilhões em 20 anos, por isso que eu digo 6,4% do PIB. Se supõe que pré-sal vai dar R$ 225 bi, ele poderia ser uma fonte desse dinheiro. Eu peguei 15 fontes de onde a gente poderia conseguir esse dinheiro e com elas a gente pode chegar a R$ 750 bi. (Quais fontes?) São várias, não vou citar todas aqui. Mas por exemplo, quem vai querer um imposto sobre as grandes fortunas, reduzir publicidade do governo, eliminar subsídio que se dá para educação privada, porque se a pública vai ser boa, não precisa bancar a privada, ou então voltar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), só que fazer ela ser toda destinada pra educação, pegar 50% do lucro das estatais que vão pro governo, usar rentabilidade de reservas?
Tudo isso dá o dinheiro que a gente precisa. Não precisa dos 10% do PIB. Isso não existe.
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