KIKO CONSULIN e a montanha-russa de seus espectros poéticos

Escrito por Mhario Lincoln. em: 04/08/2015 | Atualizado em: 04/08/2015

Compartilhe
 (*) Mhario Lincoln
 
Você acreditaria em um poeta que escreve - "Não estou me jactanto,/ao contrário: - incomoda o não pousar,/a falta de solidez. (...) sou asas/ e elas são redivivas,/Por isso procuro porto/ e as estrelas/ são referências...(...)".
Conseguiria ler e sentir um poeta que escreve - "Já houve um mistério chamado tu,/Apesar disso caminharei novamente por caminhos/onde meus pés,/um dia,/plantaram saudades...".
 
Na verdade, todos nós deveriamos, sim, ler, acreditar, sonhar e refletir poesias. Especialmente quando se trata da poesia simbolista, íntimista, reflexiva, odiante, pegajosa, pueril, romântica, sofrida, com sérios questionamentos vivenciais de KIKO CONSULIN, mas perfeitamente decifrável e, até divertida, em alguns momentos, como nos mostra o próprio nome de um de seus livros "Estimaiszinhos de Animação", uma corruptela linguística, engraçada e harmônica, reformulada com base no título "Animaiszinhos de Estimação".
Porém, o conteúdo desse livro com título corruptélico, traz em seu bojo poemas sérios e de clara angústia pessoal, seja nos caminhos seguidos, seja nos amores perdidos, seja nos amores reconquistados: "... mãos dissociadas da dignidade,/do afeto,/do irmão;/dissociadas de sonhos,/de anseios,/ de perdão;/pois que mãos assim/ cavam tristes sepulcros...".
 
Talvez seja esse o livro-chave para quem quer estudar, à fundo, KIKO CONSULIN, poeta, escritor e pesquisador paranaense, hoje, residindo em São Luís-Ma.  Uma pessoa de explícita alma cativa, homem de sonhos e pesadêlos, húmos da realidade casual, a qual lhe levou e trouxe, em subidas e descidas, pela montanha russa da imaginação poética, esbarrando, em muitas vezes, na solidão de seus pensamentos, mas, inevitavelmente, dissolvida, essa solidão, nos sais dos ares da maré cinza, que respira todos os dias, de frente para da praia do Araçagy (MA), onde impôs-se morar.
 
Um homem de grandes amores. De grandes saudades. De grandes aventuras: "É difícil conviver você/com meus passos de outono/ se recendes primavera". Um poeta sentimentalista ao extremo: "Como fruto maduro,/como canto obscuro,/como negritude e ais,/meu coração canta/o que jaz/em paz...". 
 
Um poeta empunhando seu destino como espada contra o próprio destino, lubrificando-a com as lágrimas da ternura que as pessoas de bem podem espargir, contudo, feitas, essas pessoas, de repente, reféns da própria espada: 
"No ato-empunhadura do copo/a exteriorização nua da dor; no copo, o brilho cruel,/a sublimação da forma e do fel;/na sublimação, caminhar o errático e impreciso caos; no limbo,/tornar-me arcabouço/de hierarquias noturnas,/ de submissão oblíqua,/ de monolíticas esperas./ Por fim, empunhar o copo."
 
As variações de modelo, estilo e incertezas fecundam a alma deste poeta simplesmente fantástico e o fazem traduzir em poemas intimistas as cousas que lhe atravessaram o caminho, umas vezes, como almas desgarradas; outras, como anjos decaídos; e mais outras, como mães-d'água com cânticos sutis que atraem os marinheiros fortes ou fracos para liberdade da alma, porém, na verdade, para o aprisionamento do coração.
 
(Mhario Lincoln & Kiko Consulin)
 
Entretanto, 'em cismar sozinho à noite', KIKO CONSULIN tem encontrado um enorme prazer em sua netinha. Fê-la sua âncora de fé. Fê-la sua bússola e com ela na alma, vai devolver sua canoa com panos novos, velas novas, breu novo (para tapar os buracos dos vazamentos espirituais) ao mar das esperanças. Reviver o vivido de forma desnudada. Voltar aos encantos fortificado. Sentir os sentimentos de forma caudalosa o quanto for necessário. Mas sempre, somente o necessário, sem mais exagêros inconstantes e desobedientes.
 
KIKO CONSULIN é um exemplo vivo de verdade. De amor. De força. De caráter. De personalidade e, acima de tudo, de talento incomum. Um talento que rompe os apocalípses existenciais... "assim/que amargo é o poço do moinho da memória,/assim/ a dureza da espera e angústia, inquietantes,/ vão rompendo frouxas linhas,/somando rancores distantes./ assim/ nascem errantes cavaleiros/de inevitável apocalipse....".
 
O autor de "Estimaiszinhos de Animação",  trabalha a palavra, a frase, o verso, com exímia qualidade de quem conhece a língua-pátria. Um sopro forte do que vem dentro da própria imaginação instigante, progressiva, permanente, insolúvel. 
 
Trabalha com todos os sentimentos interligados, como numa rede, sabendo distinguir sabiamente quais os interruptores devem ser desligados ou ligados na sua construção poética, a fim de que não haja um curto-cirtuito de intensões, nem mentiras que violem o sentido corajoso do que precisa vociferar, com a mesma firmeza se fosse apenas para o vento ou para uma multidão de admiradores. 
 
Aliás, sou um de seus admiradores; da pessoa humana que é e das construções psico-poéticas de enorme impacto em que as lê. Acho que esse livro marca um novo estado de consciência/inconsciente(?), um rito de passagem faltando ainda alguns ajustes para que sua abóboda o faça transparecer - no todo - aos que estão do lado de fora de seu mundo.
Este é um homem, um dia, alcunhado 'mochileiro', por suas eternas idas e voltas pelos caminhos da vida, "não tenho fundo/não tenho borda/só me disperso/ só / contenho-me...!" 
 
E em razão disso ganhou experiência fundamental não só para seus 'ais' como para seus sorrisos e cheiro de mar. Justo para ele saber que os mistérios das profundezas, equivalem-se pelo menos em gênero, às profundezas da alma. Mergulhar é preciso, Respirar é preciso. Viver é preciso. 
 
Resplandecer é preciso. Amar é preciso. Sofrer é preciso. Sorrir é preciso. Porém, tudo isso, de forma necessária. Só o necessário que nos faça distuinguir entre o bem e o mal. Entre o Céu e o Inferno. Entre Ela e Ela.
 
Talvez essas poesias que li em "Estimaiszinhos de Animação", sejam uma tentativa de alcançar essa necessária sobriedade poética, nesse incomensurável rito (pessoal) de passagem, com ou sem 'ais', com ou sem sais da terra, com ou sem mares ou montanhas, sem mochilas ou sapatos, sem dor ou com dor. 
Contudo, de todos os poemas que vivenciei nessa obra - aí o pouco que falta para a liberdade completa - todos, mas todos mesmos, têm um mote em comum: um brutal e inesquecível amor, nunca reconquistado...

Adicionar comentário

Comentários ofensivos serão excluídos.


Código de segurança
Atualizar