Josiele: convidada de hoje

Escrito por Mhario Lincoln. Publicado em Arte e Literatura em: 10/03/2014

Olá meninas lindas e poderosas. Enfim, chegou nosso dia.


O dia que foi criado única e exclusivamente para nós.
mulheres. sim, mulheres.


Mulheres que lutam, que sobrevivem a TPM, ao estresse do dia a dia, aos
constantes machismos de alguns homens, resistimos às cólicas, resistimos
as dores do parto.


Choramos quando necessário, emocionamos com coisas bobas. sim, somos uma
manteiga quando precisamos. somos frágeis como um cristal. mas jamais
deixamos de ser mulher.


Afinal de contas ser mulher é isso.


É enfrentar o medo de cabeça erguida, é dar carinho e colo quando
necessário.


É acalentar a criança que tanto precisa. é amamentar, é ser esposa, é
ser fiel, nossa ser mulher é isso e tudo mais.


É ser sensual sem ser vulgar, é saber compreender aquela sua amiga. É
saber aconselhar quando necessário,


afinal ser mulher é tudo isso e muito mais.

Afinal que mulher que não tem uma cólica, uma estria, uma gordurinha ali
outra lá. uma celulite. nossa brigamos com a balança. mas, estamos
firmes e fortes ali sempre ali.

Claro, buscamos sempre sermos as mais lindas, as mais perfeitas mas,
precisamos saber que não existe mulher perfeita.
toda mulher tem sua estria, sua gordurinha, sua celulite. pode ser a

Mais top, a mais popular a mais famosa.
então, sejamos mulheres sempre. mulheres de fibra afim de lutar sempre
por nossos ideais e sonhos e jamais deixar de ser quem realmente somos.

Parabéns pra nós

Autora: Josiele

"Restos do carnaval", de Lispector

Escrito por Mhario Lincoln. Publicado em Arte e Literatura em: 06/03/2014

Especial quarta-feira de cinzas (2014)

Ilustração de Ana Raquel (original do texto) e foto: Google Imagens

 

Restos do carnaval, de Clarice Lispector
Clarice Lispector (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )


Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartasfeiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

 

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Inéditos de Pedro du Bois

Escrito por Mhario Lincoln. Publicado em Arte e Literatura em: 02/03/2014

LUZES

 
A luz predisposta
na porta entreaberta
o sono abafa o choro
de perdidas imagens
lembradas no início
raiva concentrada
em impropérios
caminho bifurcado
segue o destino
sobre a elevação
o vento silencia
a resposta
cobra do corpo
o escopo deposto
em anotações
verbaliza ordens
a desordem habita
sua vista
a luz ganha espaço
perdido na composta
vida: outro o preferido
em amor e vácuo
mortos sentimentos
retornam na estrada
                      única. 

(Pedro Du Bois, inédito)

 

 

SAPIÊNCIA

 
Sabe o que aprende
através dos deuses
do conhecimento:

desconhecido ser
                 interior
na tentativa de entender
o começo no alvoroço
da passagem suave
no encanto da chegada
em torvelinho distinto
de estrelas
     e corpos suspensos

o que apreende
dos deuses no reconhecimento
sobre a ignorância
                   paira
                   no mundo
                   de diversos universos
                                em desconheceres.

(Pedro Du Bois, inédito)
 
 

Meu Convidado hoje:

 

"A Banalidade do Mal"

Escrito por Mhario Lincoln. Publicado em Arte e Literatura em: 26/02/2014

(*)Trechos de artigo publicado dia 08/06/2013 no jornal "Brasil de Fato"

 


"Quem opta por fazer o bem e se doa na construção de um mundo mais justo tem de aprofundar o seu pensar e constantemente rever o seu modo de agir. Quem faz o mal nem precisa de opção".

 

 

 

Marcelo Barros (*)

 

Nessa semana, (08/06/2013) o mundo recorda os quase 70 anos do dia em que a humanidade perdeu sua inocência e viu o lançamento da primeira bomba atômica, no caso, jogada pelo governo dos Estados Unidos da América sobre a população de Hiroshima (no dia 06 de agosto de 1945). Dois dias depois outra bomba norte-americana caía sobre a cidade de Nagazaki, ambas no Japão.

No Ocidente, os meios de comunicação divulgaram a noticia de que esse era o único modo de acabar com a guerra. No entanto, desde dois meses antes, no dia 06 de junho, as tropas aliadas tinham conquistado a Normandia e vencido o exército alemão, o que levou à rendição de Hitler e ao fim da guerra na Europa.

A quase indiferença com a qual, naquele momento, a maior parte das nações encarou a destruição das duas cidades, a morte de milhares de pessoas inocentes e as consequências da radiação sobre as gerações seguintes só pode ser compreendida se se toma consciência do racismo ocidental em relação aos orientais.

Além disso, sem dúvida, uma cultura de convívio com a morte conduz as pessoas a acharem menos horrível o sofrimento dos outros, principalmente se estão distantes. Alguns anos depois, em Jerusalém, ocorria o julgamento de Adolf Eichmann, o oficial nazista que organizava o transporte dos judeus para os campos de extermínio. A imprensa havia descrito Eichmann como uma espécie de cérebro monstruoso do mal.

Como correspondente da revista New Yorker, a filósofa judia Hannah Arendt assistiu ao julgamento de Eichmann e sobre isso publicou o livro que escandalizou muita gente. O livro se intitula: “A banalidade do mal”. Ao contrário do que dizia a opinião pública, ela afirmou: “Eichmann era um homenzinho insignificante e medíocre, cuja única característica notável era não pensar e não dar o menor sinal de uma autêntica personalidade própria, nem de direita, nem de esquerda e não estar ligando para o bem ou para o mal”.

Quanto mais ela o entrevistava, mais se dava conta: era impossível conversar com ele, não porque ele mentisse, mas simplesmente porque não tinha pensamento próprio. Repetia frases prontas e argumentos que aprendeu no exército nazista. Segundo ele, a responsabilidade do que fez não era sua e sim dos chefes que lhe mandaram matar judeus. E isso é que foi grave porque, ao não se dar o trabalho de pensar, ele cometeu um verdadeiro genocídio e se tornou responsável pelo sofrimento e pela morte de milhões de pessoas.

Por revelar essa banalidade do mal e por revelar que algumas organizações judaicas também colaboraram com o nazismo, Hannah Arendt sofreu muitas pressões e incompreensões. Ela revelou que os judeus que tinham muito dinheiro e poder não morreram, nem foram perseguidos. Morreram os pobres e as pessoas comuns. A imprensa e o Estado de Israel se sentiram traídos.

(...)

Aqui no Brasil, no tempo da escravidão, muitas pessoas de bom coração tinham escravos sem se perguntar sobre isso. Nas operações policiais, há soldados que agridem pobres na rua por serem negros ou estarem mal vestidos. Depois, voltam à casa, beijam a esposa, tomam nos braços o filho pequeno e lhe fazem carinho.

Segundo nos ensina Hannah Arendt, uma sociedade que não faz pensar e não torna acessível a todos a capacidade de aprofundar criticamente a própria história transforma homens e mulheres em pessoas sem responsabilidade moral, mesquinhos executores do que pensa e transmite qualquer programa sensacionalista de rádio ou televisão que transmite os crimes do dia misturados com a propaganda de Coca-cola.

Como Pôncio Pilatos no julgamento de Jesus, essas pessoas lavam as mãos e deixam o mal se perpetuar, como a banalidade de suas vidas. Para quem crê, Paulo escreveu aos cristãos de Roma: “Não se conformem com esse sistema do mundo, mas se transformem continuamente pela renovação da mente” (Rm 12, 2).

Marcelo Barros é monge beneditino.